Jornalista de Chapecó recorda plantão e confirmação de mortos “Ali, desabou”

Fábio Schardong (listrado) durante apresentação na Rádio Chapecó - Foto/Arquivo Pessoal

Fábio Schardong ancorou plantão por  toda madrugada e noticiou mortes de profissionais do clube, companheiros de profissão e do irmão

Leandro Oliveira
Redação, SP

“Sinceramente a gente não pensa em quem estava (no avião) porque a gente acaba colocando a nossa profissão acima de tudo com o intuito de informar os nossos ouvintes”.

A citação em destaque é de Fábio Schardong, jornalista da Rádio Chapecó, que colocou a emissora no ar às 3h30 da madrugada de 29 de novembro de 2016 para informar, inicialmente, sobre o pouso forçado do avião que levava a Chapecoense para sua primeira final internacional.

Na verdade, Fábio, antes mesmo de transmitir a informação para os ouvintes, queria saber ao certo o que acabara de acontecer com o avião. Horas antes, seu filho lhe contava sobre o desaparecimento do avião, já em território colombiano. A ânsia por notícias concretas e a necessidade de informar sobre o ocorrido tiraram o jornalista de casa em plena madrugada e durante uma chuva torrencial que caía sobre a cidade.

Naquele plantão, que durou quase quatro horas, Fábio noticiou a morte de praticamente todo o time da Chapecoense, de companheiros de profissão, amigos de emissora e do irmão, o narrador Fernando Schardong.

No dia em que a tragédia com o avião da Lamia, que matou 71 pessoas, completa um ano, o Tempo de Bola retrata a história do plantonista e apresentador da Rádio Chapecó, Fábio Schardong, um dos primeiros a noticiar sobre o acidente com a aeronave no Brasil. Fábio ancorou por mais de três horas e meia um plantão com informações diretas da Colômbia e só deixou os estúdios da emissora após a confirmação do número total de vítimas.

A noite que não teve fim

A madrugada sem sono de segunda para terça-feira poderia ser um sinal de nervosismo pela decisão da Copa Sul-Americana entre Chapecoense e Atlético Nacional. Ansioso, sem ter muito o que fazer, Fábio Schardong tentou dormir. Porém em vão. Levantou, tomou água, fumou alguns cigarros e trocou de canal na TV. Logo após ir deitar novamente, seu filho o chamou.

Jornalista contou sobre apuração e informação aos ouvintes sobre tragédia com avião da Chapecoense

“‘Olha aqui pai, aconteceu alguma coisa com o voo da Chapecoense’, ele tinha visto no Twitter. Me levantei já buscando outras informações e detalhes. A primeira informação era de que se tratava de um pouso forçado que havia acontecido”, recorda Fábio.

Dali em diante, nada voltou a ser como era antes. O sono que se fazia ausente durante toda a noite, desapareceu de vez. Antes das 2h, Fábio já tinha entrado em contato com conhecidos em busca de informações. Além do irmão, Fernando, o repórter Douglas Dorneles, também fazia parte da equipe da Rádio Chapecó e estava na aeronave. Mas nem os amigos próximos e nem a imprensa brasileira sabiam mais detalhes do ocorrido. “Ninguém sabia absolutamente nada”, relembra.

Dentro de casa, Fábio e o filho tentavam se informar através da imprensa colombiana. Em vão, já que a área onde o avião teria pousado era de difícil acesso. Naquele momento, uma chuva intensa caía sobre Chapecó e causava pequenos estragos como alagamentos. As 3h, Fábio saiu de casa junto do filho para ir até a emissora. “Moro relativamente perto. Só fui me tocar que chovia quando cheguei no prédio da rádio molhado até o joelho”.

Sem locutores de madrugada, a Rádio Chapecó, à época, funcionava com uma programação automática. Coube ao jornalista instruir o filho, para que ele operasse a mesa de som, e ao próprio Fábio a missão de continuar apurando novas informações e passa-las ao vivo para os ouvintes de Chapecó e região. Às 3h30 Fábio entrou com o plantão de notícias.

“Fomos buscando informações, principalmente acompanhando a rádio Caracol da Colômbia, que tinha as informações concretas a respeito de tudo que aconteceu”, recorda.

Nessa altura, a informação já havia sido veiculada na imprensa brasileira. O telefone da Rádio Chapecó não parou de tocar. Veículos de comunicação de diversos estados entraram em contato para apurar as notícias que chegavam e saíam da cidade.

“Viemos para a emissora com a informação de um pouso forçado. Ninguém sabia ao certo o que havia acontecido”, lembra. “Algumas pessoas falavam que era um pouso forçado, não se sabia a respeito de vítimas. Depois veio a informação de que seriam 25 mortos e o restante sobreviventes. Posteriormente desmentiu-se sobre os 25 mortos”.

O desencontro de informações fez com que Fábio ligasse ao menos 20 vezes para os companheiros de emissora. Todas sem sucesso, o que fez com que o grau de preocupação aumentasse. No Twitter e através da rádio colombiana, a informação já era sobre o resgate de seis sobreviventes, sendo dois estrangeiros da tripulação, um jornalista brasileiro e três jogadores.

A notícia que surgiu com a possibilidade de pouso forçado, se desenhava como uma tragédia. Ainda que a presença de colegas do cotidiano, companheiros de profissão e do irmão no avião fosse confirmada, Fábio deu continuidade a apresentação do plantão de notícias até às 7h.

Nessa hora, a Rádio Chapecó transmitiu em cadeia com a rádio Caracol um pronunciamento oficial do general da polícia local José Acevedo Ossa. A declaração de Acevedo tirou o chão de Fábio e de todos os ouvintes naquele instante. “Os sobreviventes são esses seis. Os outros são mortos”.

A frase, dita no fim do pronunciamento, silenciou Fábio e os demais companheiros de emissora que estavam no estúdio. O corte seco da fala do general deixou Fábio sem palavras. No estúdio, todos se abraçavam em um momento de consolação mútua. Coube ao apresentador apenas repetir a declaração.

Fernando Schardong, narrador e irmão de Fábio, foi homenageado com medalha do mérito desportivo
“Eu que estava ancorando a transmissão precisei repetir aquilo que o general disse. ‘Bom, se sabíamos então que seis são sobreviventes, dois estrangeiros da tripulação e quatro brasileiros, e os outros são mortos, dentre os mortos estão o Fernando e o Douglas’. Aí desabou. Caiu a ficha, digamos assim. Quase não consegui passar essa informação de viva voz aos nossos ouvintes”, descreveu.

O plantão, que teve iniciou quase quatro horas antes, foi encerrado por Fábio, que deixou o estúdio após informar sobre o número de mortos na tragédia. A equipe de jornalismo da Rádio Chapecó deu continuidade à cobertura. O jornalista antecipou as férias para digerir todo o ocorrido e só voltou a trabalhar em janeiro deste ano.

O plantão daquela madrugada ficará eternamente registrado na memória de cada ouvinte, mas principalmente, na lembrança de Fábio Schardong. A tristeza sentida pelo jornalista e pelos torcedores foi compartilhada Brasil afora.

O jornalismo, assim como o mundo da bola, prega peças. Por mais que o desejo seja por contar boas históricas com finais felizes, inevitavelmente, escreveremos capítulos tristes e repletos de dor. Há um ano, Fábio Schardong colocou sua vocação em primeiro lugar e deu a notícia mais triste de sua vida.

Tempo de Bola
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