“Das antiga, meu” Rivalidade com R mais que maiúsculo

Rivellino, Ademir da Guia e o árbitro Dulcídio Wanderley Boschilia, antes da final em 1974; uma das várias batalhas dos cem anos de Dérbi (Foto: Divulgação)

Timão e Verdão fazem neste domingo o clássico marcado por partidas históricas, goleadas, brigas e muitos títulos

Domingo é dia de Dérbi. E não será qualquer partida. O confronto entre Corinthians e Palmeiras na Arena Itaquera pode não valer a liderança do nacional, mas é visto como uma final antecipada, devido à ascensão palmeirense e ao mal momento corintiano, que teme perder um título quase certo (são cinco pontos de diferente, que já foram 17 entre o primeiro e o segundo turno). Além disso, a partida será a última entre os rivais no ano do centenário do confronto.

Hoje, o torcedor se agarra aos poucos ídolos dos elencos atuais sem se esquecer de quem fez a história de um dos maiores clássicos do país. Quem já teve Rivelino, Ademir da Guia, Sócrates, Alex, Baltazar, Oberdan, Marcelinho, Marcos… hoje se apega (com muita boa vontade) aos poucos nomes dos elencos como Prass, Jaílson, Mina, Guerra, Moisés e Dudu de um lado e Cássio, Balbuena, Fagner, Arana, Jadson, Rodriguinho e Jô, do outro.

Independente da qualidade em campo e da decisão judicial que abre as portas dos estádios apenas para os torcedores mandantes, o Dérbi tem tudo para ser uma das partidas mais quentes do ano, como acontece há 100 anos. Desde 1917, foram 352 jogos, com 125 vitórias palmeirenses, 121 corintianas e 107 empates. O verdão balançou as redes 511 vezes contra 469 gols alvinegros.

Para aquecer o coração do torcedor, listamos as principais partidas da centenária rivalidade paulistana.

O primeiro…

Crédito (Reprodução: palmeirasonline.com)

A história do confronto entre Palestra Itália e Corinthians começa no dia 6 de maio de 1917, no estádio do Parque Antártica. A demora para o primeiro embate foi motivada pelo racha no futebol paulista, que contava com duas competições paralelas: a primeira, organizada pela LPF (Liga Paulista de Foot-Ball), contava com clubes tradicionais (entre eles o Timão). A segunda competição era montada pela Apea (Associação Paulista de Esportes Atléticos), que abrigava times chamados de “varzeanos” por fazerem parte de um grupo deslocado da capital, além de agremiações de outras cidades. Assim, a Apea contava, entre outros participantes, com Palestra Itália e Santos.

E foi em 1917 que a LPF foi desmembrada, possibilitando uma competição unificada, que poderia contar com o primeiro confronto entre palestrinos e corintianos. Quatro anos mais novo, os italianos do Parque Antártica não tomaram conhecimento do adversário. Logo de cara, um 3 a 0, com três gols do atacante Caetano Izzo, um jovem de vinte anos, que mais tarde defenderia a Seleção Brasileira no Campeonato Sul-Americano e seria nome chave no título estadual palestrino em 1920.

Maior goleada: Timão atropelado por 8 a 0

 

Lance de Romeu Pellicciari na goleada de 8 a 0 (Foto: GazetaPress)

Também foi jogando no Parque Antártica que o Palestra Itália aplicou a maior goleada da história do Dérbi. Com Nascimento, Carnera e Junqueira; Tunga, Dula e Tuffy; Avelino, Gabardo, Romeu Pellicciari, Lara e Imparato (este último preponderante para o placar), que o time treinado por Humberto Cabelli fez oito gols no Corinthians. Foi num 5 de novembro de 1933, ou seja, há 85 anos.

Imparato, dono do time

A partida era válida pelo segundo turno do Campeonato Paulista e pelo torneio Rio São Paulo (sim, problemas com calendário já castigavam o futebol brasileiro nos anos 30).

Com três gols e duas assistências, Luiz Imparato foi eleito o melhor em campo e ainda teve um gol anulado no segundo tempo, que poderia elevar o placar. Além de Imparato, Romeu Pellicciari (quatro vezes) e Gabardo marcaram os outros gols ítalo-brasileiros.


O IV Centenário, título corintiano e superstição palmeirense

A partida disputada no dia 6 de fevereiro de 1955 decidiu o Campeonato Paulista de 1954. Era o estadual que comemorava o quarto centenário de São Paulo. Para ficar com o título, o Palmeiras, que jogou aquela partida de azul (há relatos de que um pai de santo teria dito a dirigentes palmeirenses que a cor traria sorte, o que é rejeitado por alguns historiadores), precisava vencer e ainda torcer por uma combinação de resultados na última rodada. Já ao Timão, bastava um empate. E assim foi.

Com gol de Luizinho, o Pequeno Polegar, aos nove minutos do primeiro tempo, o Corinthians garantiu o empate em 1 a 1 com o rival (Nei marcou para o Palmeiras). Outro destaque daquela partida foi o goleiro Gilmar dos Santos Neves, que fez um dos melhores jogos da carreira. O título corintiano foi o último antes da longa fila que durou até 1997, quando o time voltou a ser campeão contra a Ponte Preta. Uma curiosidade é de que nas duas conquistas o treinador era Oswaldo Brandão

1974 e a melancólica despedida de Rivelino

 

Ronaldo, gol decisivo no Derbi

Com vinte anos sem títulos, o torcedor corintiano viu na final contra o rival a chance de colocar o fim ao sofrimento desde o gol de Luizinho em 1954. Mas no dia 22 de dezembro de 1974, o Palmeiras, que passava pela sua segunda academia, derrotava o Corinthians por 1 a 0, com gol de Ronaldo e conquistava o Campeonato Paulista, prolongando a fila de títulos do alvinegro. O Verdão vinha de dois títulos nacionais (72 e 73), tinha seis jogadores na Seleção que disputou a Copa da Alemanha daquele ano (Leão, Luís Pereira, Alfredo Mostarda, Ademir da Guia, Leivinha e César Maluco) e no banco de reservas, o técnico Oswaldo Brandão, que comandou o Corinthians em 1954 e voltaria ao Parque São Jorge para o fim da fila, em 1977.

Apesar de ter um timaço, foi o atacante reserva Ronaldo que decidiu o campeonato. Depois do 1 a 1 no Pacaembu, a finalíssima foi disputada no estádio do Morumbi, que recebeu um público de mais de 120 mil pessoas.

O lance do gol começou com desarme do zagueiro Luís Pereira em cima de Rivelino. Ele lançou Jair Gonçalves, que cruzou para Leivinha escorar para Ronaldo marcar de primeira e garantir o título para o Palmeiras.

Após a final, Rivelino foi apontado como um dos culpados por mais um fracasso corintiano. Deixou o clube e foi para o Rio de Janeiro, fazer história na Máquina Tricolor do Fluminense. “Foi um momento muito triste. Me senti injustiçado. Pensei até em encerrar a minha carreira”, contou Rivellino, durante entrevista ao programa “Bola da Vez”, da ESPN, em 2007.

Pelo lado alviverde, o jogo também marcou a vida de outro eterno camisa 10. “A conquista de 74 realmente marcou e ficou gravada. Ganhar do Corinthians sempre foi especial e nós conseguimos mantê-los no jejum e fazer com que ultrapassassem os 20 anos”, comemorou Ademir da Guia, o Divino, jogador que mais atuou na história do Dérbi, com 57 partidas.

 

Máquina da Parmalat acaba com a fila

O dia 12 de junho de 1993 é uma data mais que marcante para o torcedor palmeirense. Com mais de 104 mil pessoas nas arquibancadas, o Morumbi assistiu naquele dia o fim do jejum de títulos de quase 17 anos, com uma goleada sobre o rival.

O time montado pela parceria com a multinacional de laticínios Parmalat contava com ídolos como César Sampaio, Edmundo, Evair e Roberto Carlos. O Palmeiras era considerado favorito, mas foi derrotado na primeira partida, por 1 a 0, gol de Viola. O atacante comemorou imitando um porco, gerando revolta entre os palmeirenses.

Revolta que foi combustível para a segunda partida, quando o Palmeiras do técnico Vanderlei Luxemburgo atropelou o Corinthians. Com gols de Zinho, Evair (2 vezes) e Edilson, o mesmo que seis anos depois causaria a ira alviverde.

 

Embaixadinha e pancadaria geral

Uma das partidas que melhores exemplificam a rivalidade entre os dois times foi a decisão do estadual de 1999. Com o ambiente mais do que fervente, devido ao confronto nas quartas de final da Libertadores (quando o Palmeiras venceu nos pênaltis), os times trocavam provocações. Na primeira partida, 3 a 0 para o Timão, que enfrentou reservas do Palmeiras. O Verdão se poupava para a final do torneio continental, três dias depois, quando venceria o Deportivo Cali. Campeões, os jogadores do Palmeiras foram para a final do estadual com os cabelos pintados de verde. Já os corintianos se “armaram” com máscaras e focinhos de porco, comprados No comércio popular da Rua 25 de Março.

A partida estava empatada em 2 a 2, com dois gols de Evair para o Palmeiras e de Marcelinho e Edílson para o Timão. E foi o último que acendeu o estopim para uma grande confusão no campo. Aos 30 minutos do segundo tempo, com o título já estava garantido, Edílson recebeu bola na direita e começou a dar as famosas embaixadinhas. Foram cinco, antes de parar a bola na nuca. Ele só foi parado pelo lateral esquerdo Júnior, que o acertou com um chute, Edilson quase levou um soco de Paulo Nunes. A briga generalizada estava armada no gramado do Morumbi. No final, 2 a 2, o 23º Paulistão do Corinthians e uma das mais inesquecíveis batalhas campais do futebol brasileiro.

 

São Marcos, o santo parando o pé de anjo

 

Marcos, santo protetor dos palmeirenses

Em 1999, o caminho para o título palmeirense na Libertadores contou com a classificação para as semifinais sobre o Corinthians, nos pênaltis. No ano seguinte, não foi diferente. Naquela ocasião, os times se enfrentaram com um histórico recente de várias conquistas. Desde 1998, foram dois nacionais, um paulista e um mundial para os corintianos contra uma Libertadores, duas Copas Mercosul e uma Copa do Brasil para os palmeirenses. E foi com o excesso de títulos e rivalidade que aquela semifinal foi disputada. No jogo de ida, 4 a 3 para o Corinthians.

Na volta, Um Palmeiras aguerrido, liderado por Marcos; Roque Júnior, Júnior, César Sampaio e Alex, venceu o rival por 3 a 2 com gols palmeirenses de Euller, Alex e Galeano e dois de Luizão para o alvinegro. Com um placar agregado em 6 a 6, a decisão ficou para os pênaltis. Todos os jogadores do Palmeiras marcaram. No Corinthians, o último pênalti coube ao ídolo Marcelinho Carioca, um dos principais nomes da bola parada na história do país. Mas a cobrança o “Pé de Anjo” (apelido dado devido à extrema qualidade com que batia na bola com seu pé tamanho 36) parou nas mas de “São Marcos”, que correu para a torcida, comemorando o triunfo sobre o arquirrival. A vitória valeu como uma taça ou prêmio de consolação antecipado, já que na final da Libertadores daquele ano o Palmeiras não seria páreo para o Boca Juniors de Riquelme.

Francisco Assis de Paula e Silva

Francisco Assis é jornalista e educado pelo futebol Formula 1 e pelo jornalismo esportivo. Iniciou na profissão como repórter de esportes no rádio e na mídia impressa. Passou a trabalhar em outras editorias e volta à sua paixão com o Tempo de Bola. Fã do futebol antigo, quer neste projeto realçar na memória do torcedor as histórias de ídolos, grandes times e jogos que construíram a base para o esporte mais apaixonante que existe. “Não podemos esquecer da nossa responsabilidade ao contar a história do esporte. Pois é assim que nascerão novos torcedores, aqueles que darão saúde à essa eterna paixão”.

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