Símbolo de luta por igualdade, torcedora virou presidente do time do coração

Rafaela Escalante deixou as arquibancadas para classificar o Plácido de Castro à Série D do Campeonato Brasileiro

Leandro Oliveira
Redação, SP

Quem nunca pensou em dirigir o clube do coração? Administrar, reforçar, buscar recursos. O pensamento que passa pela cabeça de muitos torcedores Brasil afora, foi colocado em prática por Rafaela Escalante. A jovem de 26 anos sempre foi torcedora do Plácido de Castro, time acreano, e decidiu trocar o concreto das arquibancadas pelo desafio de presidir o clube por acreditar em dias melhores.

Criada dentro do esporte, Rafaela Escalante jogou futsal durante a infância e adolescência. Torcedora de arquibancada confessa, daquelas que tomam chuva, sol e não medem esforços para cantar durante os 90 minutos. Enquanto estudante, sempre que o Plácido de Castro ia entrar em campo, a jovem pegava a estrada e viajava 100 quilômetros para incentivar o clube.

“Costumam dizer que realizei o sonho de muitos torcedores, porque eu era presidente de torcida organizada e fui ao extremo, para a presidência do clube”

Hoje a presidente cobra mais espaço para participação feminina na gestão, administração, comissão técnica e principalmente nas arquibancadas. “Temos que acabar com esse tabu de que só homem pode trabalhar nessa área. A participação está ficando mais nítida, as mostram que gostam e entendem de futebol. Isso é bom e nós precisamos invadir esse universo”.

Dificuldades, falta de apoio e a esperança na Série D do Brasileirão

Formada em administração pela Uninorte em 2013, Rafaela conhece bem as dificuldades do futebol acreano, que luta anualmente para sobreviver sem estrutura e com cofres praticamente vazios. “Nosso maior desafio é não ter dinheiro. É complicado, pois o clube não tem nada em caixa. Temos que trabalhar sem recursos”, afirmou.

Presidente desde janeiro de 2016, Rafaela pôde comemorar o progresso da atual temporada. No Acre, apenas os dois primeiros colocados do estadual têm direito a disputar a Série D do Brasileirão. O vice-campeão, Rio Branco, está garantido. O Atlético Acreano, campeão, também teria direito, mas como conquistou o acesso para a Série C neste ano, a vaga foi repassada ao terceiro colocado, o Plácido de Castro.

E no jogo que valia o acesso do time rival, Rafaela não esconde que torceu pelo Atlético, já que a vitória dos atleticanos selaria a ida do Plácido de Castro para Série D e poderia fortalecer o futebol do estado.

“Torcemos pelo Atlético sim. Eu fui ao jogo do acesso torcer, né, até porque é bom para o futebol acreano e, para a gente, também seria”

Dentro de campo o Plácido de Castro está bem. Fora, a luta é diária para manter as contas em dia. Se os principais clubes do país lutam contra os problemas financeiros e sentem os reflexos da crise financeira do país, para um time de menor expressão os empecilhos são ainda maiores. “Entrei com o intuito de não adquirir novas dívidas. Até agora consegui”, respondeu. “Mas a situação ainda é crítica, não temos caixa, infelizmente”.

Em 2017, o gasto mensal total com elenco e demais despesas foi de R$ 95 mil. Para 2018, a projeção é de leve aumento nos recursos. Mas, nada que faça a presidente tirar os pés do chão.

“Mesmo com a Série D, os patrocinadores fogem. No nosso estado o investimento é pequeno, infelizmente. É difícil fazer futebol nessas circunstâncias, mas a luta é constante”

A busca por investimentos é diária, mas o retorno é incerto. Usando o exemplo do Atlético Acreano, que se tornou o primeiro clube do estado a conquistar um acesso no Campeonato Brasileiro, Rafaela trabalha por uma nova história do esporte no Acre e por mais espaço para as mulheres no futebol.

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